Por Vinícius Machado*Vinícius Machado*

Todo ano, no Dia Nacional dos Profissionais da Educação, 6 de agosto, surgem as homenagens, os vídeos emocionantes, as fotos cuidadosamente produzidas e os discursos sobre a importância de quem transforma vidas. Em Vila Velha, entretanto, basta atravessar o portão de qualquer escola municipal para perceber que existe uma enorme distância entre a propaganda e a realidade.

Nas redes sociais da Prefeitura, a educação parece viver em um universo paralelo: escolas impecáveis, gestão eficiente, alunos felizes e profissionais valorizados. É quase uma obra de ficção. Pena que quem trabalha nas unidades escolares não mora nesse mundo encantado. Mora na realidade.

E a realidade é bem menos fotogênica. As salas seguem superlotadas, comprometendo o processo de ensino e aprendizagem. A prometida climatização de todas as escolas, um dos compromissos de campanha do prefeito, parece ter entrado para o acervo das promessas esquecidas.

Também não há clima para comemorar quando o piso salarial não é corretamente incorporado à carreira. Quando faltam profissionais da educação especial, deixando crianças atípicas sem o atendimento de que necessitam. Quando servidores que têm filhos na educação especial encontram dificuldades até mesmo para exercer um direito básico, como a redução da jornada de trabalho.

Como se isso não bastasse, cresce o autoritarismo nas escolas. Pressões, perseguições e assédio institucional tornam o ambiente de trabalho cada vez mais adoecedor. Enquanto isso, a chamada aprovação compulsória ajuda a fabricar indicadores positivos no papel, embora seja incapaz de esconder os problemas concretos vividos diariamente pela comunidade escolar.

O ataque aos direitos também virou política permanente. O plano de cargos e salários foi desmontado pelo congelamento das progressões. O município continua sem pagar corretamente o adicional de um terço de férias calculado sobre os 45 dias a que os profissionais têm direito. Ao mesmo tempo, as terceirizações avançam, atingindo áreas estratégicas, como a merenda escolar e a perícia médica. Os últimos reajustes salariais sequer cobriram as perdas do período, e a atual gestão não respeita a data-base.

Enquanto isso, a obsessão por avaliações externas transforma a escola em uma fábrica de indicadores. A preocupação deixa de ser garantir uma formação crítica e integral dos estudantes para se concentrar na produção de números capazes de alimentar campanhas publicitárias. A educação passa a servir aos rankings; os rankings deixam de servir à educação.

Nem mesmo a expansão das escolas de tempo integral escapa dessa lógica. Implantadas sem diálogo com a comunidade escolar, elas são apresentadas como um grande avanço. Mas ampliar o tempo de permanência do estudante na escola não significa, automaticamente, oferecer educação integral.

Formação integral exige investimento, projeto pedagógico consistente, valorização dos profissionais e gestão democrática, elementos que não aparecem por decreto nem por peça publicitária.

Os números ajudam a desmontar o discurso oficial. Entre os 78 municípios capixabas, Vila Velha ocupa apenas a 63.ª posição em investimento por aluno. O resultado dessa escolha política aparece diariamente: estudantes desmotivados, profissionais exaustos e um sistema educacional cada vez mais fragilizado.

Não é por acaso que cresce o apoio ao pedido de instalação de uma CPI da Educação na Câmara Municipal. Quando os problemas deixam de ser casos isolados e passam a compor um padrão de gestão, investigar deixa de ser uma opção para se tornar uma necessidade.

Diante desse cenário, o mais curioso é que ainda existam autoridades dispostas a afirmar que a educação municipal vive seu melhor momento. Talvez estejam olhando para as mesmas escolas, mas através do filtro das redes sociais. Afinal, entre a escola real e a escola da propaganda existe um algoritmo inteiro de distância.

Mas a realidade sempre cobra a conta. E ela não pode ser editada por vídeos institucionais nem escondida por campanhas de marketing.

Por isso, neste Dia Nacional dos Profissionais da Educação, não há espaço para celebrações vazias. Há espaço para denúncia, mobilização e organização. Não podemos assistir passivamente ao sucateamento da educação pública enquanto nossa representação sindical permanece omissa diante de tantos ataques. Foi justamente dessa indignação que nasceu um processo de organização entre os próprios professores e professoras: a Associação dos Profissionais da Educação Pública de Vila Velha (APEVV).

Porque quem faz a escola funcionar todos os dias sabe que a educação pública não precisa de mais propaganda. Precisa de investimento, valorização, democracia e respeito. Tudo o que, até agora, continua sendo tratado como promessa, enquanto a realidade insiste em entrar na sala de aula.

 

*Professor de história da rede municipal de Vila Velha, historiador e mestre em educação.